quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Classe social que controla os meios de produção e lucra com o trabalho do proletariado



Classe social que controla os meios de produção e lucra com o trabalho do proletariado

A burguesia está diretamente ligada a criação do capitalismo.

A burguesia é a classe social que detém e controla os meios de produção. Ela domina o proletariado e tudo ligado à política e a economia de uma sociedade. Sua formação está associada ao surgimento do capitalismo.  Surge com o final da Idade Média e reconfiguração da sociedade como um todo, dando início a Idade Moderna e um novo mundo. 

A palavra burguesia vem de “burgo”. Os burgos eram cidades medievais que foram se formando conforme a queda da Idade Média. Os indivíduos que habitavam os burgos controlavam o mercado, o lucro e o consumo dos outros indivíduos, principalmente aqueles que não habitavam essas cidades. Com o passar do tempo, os burgueses foram controlando cada vez mais as relações de mercado e assim, ascendendo ao poder.

É Karl Marx, filósofo alemão, que define a burguesia como a classe social detentora dos meios de produção. Para ele, é por isso que ela se torna dominante da classe operária, o proletariado.

Surgimento da burguesia

O surgimento da burguesia está diretamente ligado a alguns fatos históricos de extrema relevância. A queda da Idade Média trouxe um novo modelo de sociedade vigente, reconfigurando a política, a economia e as relações sociais entre os indivíduos. 

A decadência da Idade Média trouxe uma série de movimentos que foram importantes para reconfiguração da sociedade. A queda do feudalismo como sistema organizacional da sociedade é um exemplo, assim como a Reforma Protestante.

Essa reconfiguração dá espaço a diversas mudanças. Esse período ficou conhecido com Era Moderna que produziu um cenário perfeito para o surgimento da burguesia como classe social. 

A burguesia conquista espaço no poder e no controle político representando o livre comércio, sem interferências, assim como as liberdades individuais de cada indivíduo, bem como a escolha da própria religião e o modo de vida. 

A expansão marítima que foi crescendo nessa época gerou a ampliação das relações comerciais pelo mundo, fortalecendo também as relações entre os burgueses. Essa ampliação das relações ligadas ao comércio, assim como as trocas comerciais, foi uma das responsáveis pela ascensão da burguesia.  No final da Idade Média, novas rotas comerciais foram traçadas pelo Mar Mediterrâneo, ascendendo o status comercial e lucrativo da burguesia. 

No Renascimento Cultural, várias ideias filosóficas foram propagas na sociedade. Essas ideias também contribuíram diretamente na formação da burguesia. O Renascimento Cultural foi também responsável por dissolver o modelo de pirâmide social vigente naquela época. 

Os burgos e sua ascensão transformaram as relações do clero e dos indivíduos nobres com a sociedade em geral, assim como sua atuação. A burguesia era antes pertencente ao povo e aos poucos foi conquistando o poder e tirando esse poder das mãos das classes mais altas. 

A burguesia e o proletariado

As teorias marxistas e socialistas trazem as definições das relações entre a burguesia e o proletariado. Essas teorias foram estudas e apresentadas pelos filósofos Karl Marx e Friedrich Engels. 

Para esses filósofos, a burguesia é classe dominante do proletariado. Essas duas classes são extremamente diferentes e distintas. Os burgueses dominaram os meios de produção, assim como os lucros, tornando o proletariado a classe subalterna, que vende sua força de trabalho. 

O controle da burguesia sobre aspectos políticos, econômicos, sociais e culturais contribui diretamente para esse controle, que vai aparecer de forma injusta. 

O socialismo e o marxismo definem o proletariado como a classe social completamente dominada. Os trabalhadores produzem para o lucro dos patrões, os burgueses. Essa relação de controle se configura também pela exploração. 

O socialismo marxista

A definição do socialismo marxista é feita por Karl Marx e Friedrich Engels. Essa corrente ideológica acabou inspirando importantes revoluções sociais pelo mundo, já que os filósofos acreditavam que só uma revolução conseguiria mudar as relações de exploração entre patrão e empregado. 

Marx e Engels apresentam a teoria a partir das críticas feitas ao capitalismo e a forma como ele é desenvolvido na sociedade. Para os filósofos, a sociedade era dividida entre burgueses e proletariados. 

Os burgueses eram aqueles que controlavam todos os meios de produção, assim como os lucros provindo deles e os proletariados que atuavam na sociedade com sua força de trabalho, mas sem receber um lucro justo por isso. 

Foi no século XIX que a teoria foi formada, principalmente porque o mundo vivia um contexto de ampla ascensão do capitalismo e do liberalismo econômico.

A burguesia conseguiu a sua ascensão nesse cenário. Assim, ela conseguiu não só controlar as questões econômicas da sociedade, mas passaram também a controlar as questões políticas, sociais e culturais. 

Para conseguir ter tanto controle econômico, a burguesia foi cada vez mais explorando os indivíduos pertencentes às classes mais baixas da sociedade. O proletariado oferecia sua mão de obra e não recebia o valor justo pela sua força de trabalho. Marx chamou de mais-valia essa relação entre o controle absoluto dos meios de produção feito pelos burgueses, que lucravam com isso. 

Essa injustiça sofrida pelo proletariado serviu como para Marx e Engels. Eles passaram a desenvolver as bases da teoria e defendia a ideia de que esse contexto não iria ser modificado sem que houvesse uma revolução da classe oprimida pelos burgueses. 

Marx defendia também a ideia de que seria necessário a união das classes oprimidas, no que ele chamava de Revolução Socialista, baseada na luta armada. Sem isso, Marx acredita que não seria possível mudar esse status. 

A ideia era que os indivíduos proletariados se juntassem para tomar, através da luta, os meios de produção e os poderes absolutos do Estado. Assim, eles iriam poder representar os interesses de todos, tornando a sociedade mais justa para as classes mais baixas. 

O filósofo ainda entendia que essa revolução era um dos meios para se estabelecer o socialismo como modelo de sociedade, o que para ele era o modelo ideal. O socialismo entraria em cena para derrubar o capitalismo e poder absoluto dos burgueses. 

Essa corrente ideológica inspirou grandes revoluções pelo mundo, como a Revolução Russa e a Revolução Cubana. Apesar disso, também recebeu duras críticas desde a sua formação.

Socialismo refere-se a qualquer uma das várias teorias de organização econômica que advogam a administração e propriedade pública ou coletiva dos meios de produção e distribuição de bens, propondo-se a construir uma sociedade caracterizada pela igualdade de oportunidades e meios para todos os indivíduos, com um método igualitário de compensação. Podemos dizer que o proletariado tem que ser mais valorizado ao contribuir com o enriquecimento da burguesia através da venda da força de trabalho.


 

CONSCIÊNCIA POLÍTICA – IMPORTÂNCIA FUNDAMENTAL PARA UM PAÍS MELHOR

 


 

CONSCIÊNCIA POLÍTICA – IMPORTÂNCIA FUNDAMENTAL PARA UM PAÍS MELHOR

Como afirmava o dramaturgo alemão Bertold Brecht, o pior tipo de analfabeto é o analfabeto político. Isso porque aquele que, por ignorância ou por vontade, abstém-se da política, não abre mão apenas de participar em prol de seus interesses particulares. Ele abre mão de sua autonomia e delega aos outros o poder de mandar sobre a sua própria vida.

A realidade política é o espelho das escolhas feitas pelos eleitores. Mas será que esta realidade é a ideal para favorecer o desenvolvimento do seu país, do seu Estado, da sua cidade, ou melhor, da sua situação como cidadão e da sua família?

Esses questionamentos deveriam ser rotineiros na vida das pessoas, uma vez que as decisões tomadas quanto a seus representantes, sejam nas câmaras municipais, nas assembleias legislativas dos estados, na câmara e senado federais, serão importantes para se determinar o horizonte a qual querem chegar.

Mas, para dar melhores condições de saúde, educação, infraestrutura, emprego e renda, dentre outros aspectos, é fundamental que os eleitores, tenham consciência política.

Segundo o dicionário Aurélio, ter consciência significa ter a faculdade de estabelecer julgamentos morais dos atos realizados, ou seja, refletir sobre as escolhas e decisões tomadas, em seus vários aspectos, considerando-se a moral e a ética nos critérios estabelecidos. A política, dentre alguns conceitos que o Aurélio apresenta, seria a habilidade no trato das relações humanas, com vista à obtenção dos resultados desejados.

Isto significa que a sociedade deve ter a plena capacidade para tomar decisões morais e éticas quanto à escolha de seus representantes, que tenham a habilidade de defender os interesses da coletividade.

Para muitos, ao ver isto, acham que se trata de uma utopia, um sonho, ao muito distante da realidade. De fato, a realidade acaba sendo outra, onde àqueles que eram para defender o progresso, a transformação em benefício das pessoas, principalmente, da camada mais pobre, acabam por direcionar seus esforços para empresários, como também para seus interesses.

Outra característica dessa situação é que os políticos se alimentam da pobreza, miséria, ignorância da grande parcela da população.

Portanto, ter consciência política é fundamental para o bem-estar de todos. Pode ser difícil, mas se tornará impossível se não lutar.

Ter uma consciência política permite participar, cobrar, criticar e buscar melhores condições diante de problemas que estão presentes constantemente na sociedade. É através dessa consciência que compreenderemos o nosso papel na sociedade, podendo através de reivindicações melhorar a nossa realidade.

O Analfabeto político (Bertold Brecht)

O pior analfabeto
É o analfabeto político,
Ele não ouve, não fala,
nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida,
o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político
é tão burro que se orgulha
e estufa o peito dizendo
que odeia a política.
Não sabe o imbecil que,
da sua ignorância política
nasce a prostituta, o menor abandonado,
e o pior de todos os bandidos,
que é o político vigarista,
pilantra, corrupto e o lacaio
das empresas nacionais e multinacionais.

E para mudar essa situação é necessário tomar atitude, vencer os medos na busca de construir uma sociedade onde as barreiras da ignorância sejam aniquiladas e a liberdade de pensamento seja a certeza de um mundo melhor.

É importante o indivíduo a tornar-se um cidadão atuante e participativo nas decisões políticas e sociais do seu meio.

Consciência política vai muito além do voto, a democracia tem a ver com a participação direta e ativa de todos nós. Os cidadãos elegíveis que permanecem no poder são responsáveis não só por aqueles que os elegeram, mas por toda uma nação. Que lembremos sempre dessa ilustre frase: “A democracia é o governo do povo, pelo povo, para o povo”, de Abraham Lincoln (1809 – 1865).

O país é rico, temos posição estratégica na atual história do mundo. Não aproveitamos nossos recursos a favor do brasileiro, não cuidamos da nossa natureza e dos recursos que ela nos dispõe, mantemos as velhas práticas de vantagem exploratória. Somos subservientes aos interesses estrangeiros e entregamos nossas empresas que geram economia ao imperialismo de primeiro mundo. Vejo com tristeza no atual cenário um esforço de retrogradação, corroborando apenas para que os mesmos de sempre não percam seus privilégios.

 



sábado, 9 de janeiro de 2021

PROBLEMAS E SOLUÇÕES PARA COMBATER A DESIGUALDADE SOCIAL


PROBLEMAS E SOLUÇÕES PARA COMBATER A DESIGUALDADE SOCIAL

Quando uma sociedade está estruturada de maneira desigual, determinados indivíduos e classes sociais se encontram em condições estruturalmente mais vantajosas do que outros. Isso é agravado ao longo dos anos pela má distribuição de renda. As oportunidades de trabalho e acessos a educação, saúde e cultura são oferecidos de maneira desigual à parcela mais rica da população em detrimento da mais pobre.

Uma série de medidas podem ser adotadas para reduzir o abismo entre ricos e pobres, desde a promoção dos direitos e à igualdade econômica, ao pagamento de salários mínimos justos, a contenção dos salários de executivos e o objetivo de o mundo todo ter serviços gratuitos de saúde e educação, segundo a ONG Oxfam.

Uma pesquisa divulgada em maio pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostrou que os 10% mais ricos ficam com 43% da renda nacional. De acordo com reportagem da Folha de S.Paulo, a massa real de rendimento, que soma as rendas mensais de todos brasileiros, foi de R$ 213,4 bilhões em 2019. O valor é 2,2% maior que o verificado em 2018, refletindo o aumento no número de pessoas com renda mensal. Deste total, 43,1% ficou nas mãos dos 10% mais ricos, valor praticamente estável em relação a 2018. Já os 10% mais pobres ficaram com 0,8% da massa de rendimento mensal domiciliar per capita no país.

Por haver as classes dominantes, estas se utilizavam da miséria gerada pela desigualdade social, graças ao lucro e acúmulo de propriedades, para dominar as classes dominadas, numa espécie de ciclo.

A concentração de renda excessiva também prejudica o crescimento econômico, de acordo com o relatório “Juntos nisso – Por que menos desigualdade beneficia a todos”, lançado pela OCDE (Organização para o Desenvolvimento Econômico).

Como reduzir a desigualdade no Brasil.

Entre as recomendações, a OCDE cita “aumentar a taxa marginal dos ricos, melhorar o cumprimento da lei, eliminar ou reduzir deduções, que tendem a beneficiar os ricos de forma desproporcional, assim como rever o papel dos impostos em todos os tipos de propriedade e riqueza, incluindo a transferência de ativos”.

O Banco Mundial já apontou recentemente que no Brasil, por exemplo, o imposto de renda e programas de transferência ajuda a diminuir a desigualdade, enquanto impostos indiretos a aumentam.

De acordo com uma das estimativas, os 20% mais pobres pagam, na média, mais em impostos do que recebem de transferências governamentais. 

Uma reforma tributária que aumente a progressividade desse sistema ajudaria tanto no crescimento quanto na redução da pobreza e da desigualdade.

Pressionar as políticas públicas (reforçando nosso papel como cidadãos)

Estar a par das propostas políticas e acompanhar os candidatos às eleições faz parte do nosso papel como cidadãos. Os políticos no Brasil só querem se eleger, depois de eleitos não fazem nada em melhorias contra a desigualdade social, pelo contrário continiam a defender os interesses das elites.

Nos últimos tempos  tem entrado bastante em debate o tema de taxar as grandes fortunas no Brasil e no mundo.

Repensar o capitalismo

Conforme artigo publicado que diz que “o capitalismo não deu certo. Ainda dá tempo de pensar um plano B?”. E sim, como um negócio social, acreditamos que deva haver alternativa mesmo para o capitalismo. Se a desigualdade for mesmo da natureza humana, acreditamos que ela possa ser menos nociva. Não nos parece certo, nem saudável e muito menos sustentável manter as coisas do jeito que estão, uns acumulando bilhões por dia, outros com nada, literalmente nada.

O Brasil viveu um ciclo de redução da pobreza com redução de desigualdades resultado da combinação de políticas sociais, investimentos em infraestrutura, melhoria na economia, no mercado de trabalho e na remuneração, em especial dos mais pobres.

Resolver a situação da desigualdade de milhões de brasileiros que não têm condições dignas é uma das demandas mais urgentes do eleitorado, mas não costuma ser prioridade dos governantes.

Além do investimento nos alicerces da sociedade, como saúde pública e educação, o governo também terá que se comprometer com as reformas tributárias, afirmam os especialistas. Para o pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Luis Henrique Paiva, os discursos de candidatos que dizem querer combater a desigualdade social, mas não se comprometem em fazer reformas básicas, tendem a ser demagógicos. Não dá para ficar prometendo que o país vai crescer e resolver os problemas de renda, se não adotar um modelo que indique que o Estado tem condição de seguir equilibrado.

A reforma tributária é necessária para que os mais pobres sejam proporcionalmente menos taxados que os mais ricos, ao contrário do que acontece hoje. O Brasil tem um sistema regressivo: a alíquota diminui quanto maiores os valores tributados. Para resolver o problema da concentração de renda, isso precisa mudar. É uma clara questão da equidade, de onerar menos as famílias mais pobres. O consumo de bens essenciais pesa muito mais no orçamento doméstico desse grupo;, lembra o economista Cosmo Donato, da LCA Consultores.

A reforma tributária é necessária para normalizar a economia, defende o professor de finanças públicas da Universidade de Brasília (UnB) José Matias-Pereira. Mas lembra de que é coisa para dois ou três governos resolverem, porque precisa ter continuidade. Como em todos os outros setores importantes, como educação e saúde, na adoção das medidas necessárias pelos governantes é a necessidade de ser um legado, incumbência, obrigação, assegurado aos cidadãos, um encargo do governo como herança.

A tributação progressiva é um componente essencial de uma política fiscal eficaz. Estudos mostram que é possível elevar as alíquotas tributárias marginais no topo da distribuição de renda sem sacrificar o crescimento econômico.

O uso de ferramentas digitais na cobrança de impostos também pode ser um dos elementos de uma estratégia global para reforçar a receita interna. Reduzir a corrupção pode tanto melhorar a arrecadação como aumentar a confiança no governo. E, mais importante, tais estratégias podem gerar os recursos necessários para investir na ampliação das oportunidades para as pessoas e comunidades que estão ficando para trás.

As políticas de gastos sociais são cada vez mais importantes para combater a desigualdade. Quando bem aplicadas, conseguem cumprir um papel fundamental na mitigação da desigualdade de renda e de seus efeitos nocivos sobre a igualdade de oportunidades e a coesão social.

A valorização real do salário-mínimo e o aumento da formalização do trabalho são pontos que precisam ser debatidos para que o país avance. Se a massa salarial não sobe, isso contribui para a desigualdade;

Diante do exposto, podemos inferir que “somente uma política socialmente focalizada nos mais pobres, aliada a medidas que efetivamente redistribuam a riqueza existente, terá resultados expressivos sobre a erradicação da miséria e a redução das desigualdades sociais no Brasil” (Marcelo Lettieri. Programa Nacional de Educação Fiscal).

Dispomos dos meios para enfrentar esses problemas, desde que tenhamos a vontade de fazê-lo. A implementação de reformas é um processo politicamente difícil, mas os ganhos em termos de crescimento e produtividade valem o esforço.


 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

DESIGUALDADE SOCIAL - Salário mínimo ‘ideal’


DESIGUALDADE SOCIAL  - Salário mínimo ‘ideal’

Segundo levantamento do DIESSE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), o salário mínimo deveria ser de MAIOR para custear alimentação, moradia, educação, vestuário, saúde, transporte, higiene e lazer de uma família. Esse montante é CINCO vezes maior que o mínimo praticado atualmente (R$ 1.100,00).

Para a Dieese, o salário mínimo ideal deveria estar em R$ 5.289 em novembro de 2020. A conta leva em consideração o preço da cesta básica no país e quanto cada pessoa precisará para conseguir pagá-la todos os mês e também arcar com outros itens como moradia, gás, luz, higiene, transporte, saúde, vestuário, etc.

Por que o salário mínimo atual está tão distante do valor ideal?

Quando o Salário Mínimo (SM) foi criado, seu objetivo era servir de instrumento para a distribuição de renda. Por isso, foi pesquisado o quanto as pessoas consumiam no mês. Ao longo da história, por conta da inflação alta, o diagnóstico muitas vezes era de que tínhamos uma inflação de demanda, ou seja, as pessoas ganhavam muito e por isso elas consumiam mais. Então, para conter a inflação, um dos instrumentos do governo era diminuir renda. Por isso, o Estado começou a fazer reajustes no SM menores que a inflação. Ao longo do tempo, o SM foi perdendo poder de compra. Isso significa que ele passou de um instrumento de distribuição de renda para um instrumento de regulação da inflação.

Qual a metodologia utilizada para calcular o salário mínimo ideal? Quais critérios e índices baseiam essa análise e quais são os seus objetivos?

Fazemos uma pesquisa mensal da cesta básica baseada no Decreto-Lei nº 399, de 30 de abril de 1938, que definiu estudos para instituir um SM (salário mínimo) no Brasil. Na época, foram feitos levantamentos em diferentes regiões para avaliar como as pessoas consumiam e seus principais alimentos. Essa é a única legislação do Brasil que fala sobre cesta básica. Com base nos principais produtos, realizamos em 21 capitais a Pesquisa Nacional da Cesta Básica. Como a quantidade de alimento presente na cesta corresponde a um único trabalhador e, em média, uma família possui três a quatro pessoas (dois adultos e duas crianças), multiplicamos o valor da cesta por três e chegamos ao gasto de alimentação de uma família.

O nosso índice de custo de vida para o estrato de menor renda indica que o percentual gasto com alimentação é de 35,71% do salarial mensal. Então, com base em uma regra de três, chegamos a um valor que engloba, além da alimentação, gastos com transporte, lazer, saúde, educação e despesas pessoais. Somando os valores, temos um SM de referência. Nunca dissemos que é o SM que deveria ser praticado hoje, mas que é o valor necessário para que uma família possa comer, se vestir, ter acesso à educação, transporte, saúde, enfim, coisas básicas presentes na constituição.

Em diferentes países considerados desenvolvidos, como Áustria, Suécia, Dinamarca, Finlândia e Noruega, não existe um salário mínimo. O que permite essa prática nesses países? Qual a importância de se ter um salário mínimo?

Nesses países não existe SM porque eles possuem um Estado que garante a manutenção dos direitos mínimos. O que aconteceu no Brasil foi que, politicamente falando, o SM serviu de instrumento contenção de inflação e perdeu seu principal objetivo enquanto instrumento de distribuição de renda.

O SM no Brasil serve, principalmente, para duas coisas: A primeira delas é a referência. Temos muitos trabalhadores que não possuem um piso por categoria. O reajuste vem conforme mudamos o SM. Ele é uma referência para os trabalhadores que não possuem muito parâmetro. Em segundo lugar, ele também é um instrumento de distribuição de renda à medida em que afere o poder de compra das famílias. Nos últimos anos, o SM não teve aumentos reais, ou seja, essas famílias não ganharam poder aquisitivo acima da inflação. Quando você tem o ciclo de aumento de renda acima da inflação, a tendência é que as pessoas comprem mais e a economia cresça.

Analisando os salários ideais divulgados pelo Dieese nos últimos 20 anos, é possível perceber uma proporção sempre cinco vezes maior que o salário mínimo praticado. Isso ocorre mesmo no período entre 2003 e 2010, quando o salário mínimo teve maior valorização. Porque, mesmo com essa valorização real desse período, o salário mínimo continuou tão aquém do necessário?

Por conta dos anos anteriores, pelo histórico de desvalorização do próprio SM. Para diminuir essa distância entre o real e o ideal deveríamos ter uma política intencional de longo prazo, praticada por vários governos. Não foi o que aconteceu. Hoje se fala em reajustes menores que a inflação.

Qual seria o caminho para o Brasil se aproximar do salário mínimo ideal? Essa questão depende apenas do desempenho econômico nacional?

A única forma seria por meio de uma política de longo prazo, que visasse a valorização do SM. O SM é uma poderosa ferramenta de distribuição de renda, mas sem uma vontade política não adianta termos crescimento econômico. Em vários momentos da história do Brasil, crescemos sem distribuir.

A economia vai bem, mas o povo vai mal!

Durante a Ditadura o país cresceu a uma taxa de até 13,4% ao ano, durante o chamado "milagre brasileiro", mas sem necessária distribuição de renda. Período de forte crescimento e industrialização nos anos 70 se deu às custas de endividamento e hiperinflação que viriam no final do regime.

Equivale a dizer que é preciso não só eliminar a miséria, a ignorância, a doença, mas promover um mínimo de igualdade entre as classes sociais. Igualdade, em certos casos, vai mais longe do que oferecer as mesmas oportunidades: quando se começa de pontos de partida astronomicamente desiguais, será necessário favorecer os mais fracos.

O que é urgente é um mínimo de entendimento que nos permita sair da paralisia sobre as políticas adequadas para distribuir renda.

A história ensina que tragédias e choques econômicos adversos podem ser uma alavanca para transformar países e colocá-los na rota da prosperidade.

Após a Segunda Guerra, a Coreia do Sul era um país pobre, devastado pelo conflito e pela longa dominação japonesa. Uma elite agrária dominava a política, tomada por corrupção, captura do Estado e populismo. Uma bem-sucedida reforma agrária foi o ponto de partida para a reconstrução do País em termos mais igualitários e produtivos, com remoção de privilégios e investimento maciço em educação.

Taiwan tem história similar, com os nacionalistas chineses lá chegando em 1949, após serem expulsos da China continental pelos comunistas, e ali realizando uma reforma agrária que derrubou a desigualdade e iniciou uma história de sucesso do mundo capitalista.

 A grande fome da China, na segunda metade dos anos 1950, levou a mudanças nas regras de coletivização da produção que estão na origem da revolução econômica que transformou o País em potência econômica.

Nos anos 1970, a Nova Zelândia vivia uma vida sossegada, funcionando como uma provedora preferencial de laticínios, lã e carne ao Reino Unido. Quando esse país aderiu ao Mercado Comum Europeu e reduziu suas barreiras às importações de outros países, a Nova Zelândia entrou e decadência econômica: desvalorização cambial, inflação, recessão, disparada do déficit e da dívida pública.

A crise induziu uma agenda de reformas, levada a cabo durante duas décadas, que abriu a economia, aboliu velhos protecionismos e subsídios, e como resultado colocou o país nos primeiros lugares nos rankings de qualidade de vida e desenvolvimento humano. A vizinha Austrália seguiu caminho similar e colheu três décadas de crescimento ininterrupto.

O ponto comum entre esses casos é que a crise permitiu transformações em aspectos políticos e econômicos que representavam entraves ao desenvolvimento de longo prazo. Situações limites enfraquecem interesses previamente estabelecidos e permitem reformas.

O Brasil é uma sociedade dividida: diferentes grupos sociais têm baixa predisposição para cooperar visando solucionar os problemas coletivos. As pessoas não confiam umas nas outras, e não hesitam em violar regras para obter vantagens individuais.

Construímos, ao longo dos séculos, uma sociedade dentre as mais desiguais do mundo.

Cada grupo social quer uma política pública que o beneficie, jogando a conta para os outros. O empresário e o profissional liberal querem pagar menos imposto, e mandar a conta para os outros. O político quer ter salário de marajá, quer se reeleger distribuindo benefícios sociais a seus eleitores, e mandar a conta para os outros. A família de classe alta quer universidade de graça, e mandar a conta para os outros. As pensões vitalícia para filhas de militares gera altos custos, cujo o regime será deficitário até 2080. O déficit deverá chegar naquele ano a cerca de R$ 7,5 bilhões, ex- primeiras-damas recebem aposentadorias especiais e pensões vitalícias que variam de R$ 10,5 mil a R$ 26,5 mil, e mandam a conta para os outros.

É preciso que haja uma atitude por parte do Governo e interesse popular. A única forma de recuperar a capacidade de crescimento, sem colocar o país  numa situação ainda mais crítica, seria com reformas que, no curto prazo, vão cobrar algum sacrifício de todos, mas que no médio e longo prazo transformarão o potencial de crescimento e a nossa realidade da desigualdade.

Toda a sociedade seria chamada a cooperar, ficando explícito o quinhão de cada um.

Seria necessário as empresas perderem benefícios tributários. Os profissionais liberais de alta renda, que pagam menos imposto por meio da “pejotização”, passariam a ser tributados como qualquer outro brasileiro. Os descontos do Imposto de Renda, que beneficiam os 10% mais ricos, deveriam ser extintos. O salário dos Parlamentares deveria ser reajustado e os auxílios das mordomias abolidos. As universidades públicas deveriam ser para os com menor renda. Militares não mais se aposentariam antes dos 50 anos de idade e o fim da pensão vitalícia.

Uma reforma administrativa adequaria remunerações e benefícios à realidade brasileira. Supersalários e penduricalhos seriam fortemente restringidos. As emendas parlamentares ao orçamento, que usualmente financiam investimentos de baixo retorno social e alto retorno eleitoral, seriam redirecionadas, por alguns anos, para financiar o novo programa assistencial ou para fechar desequilíbrios no orçamento.

Um programa explicitando que todos dariam sua colaboração elevaria o respaldo político e explicitaria a atitude antissocial de quem tenta se safar e empurrar o custo para os outros.

Isso nos tiraria da crise com um Estado menos disfuncional e uma sociedade mais coesa e propensa à cooperação, com menos pobreza e desigualdade. O potencial de crescimento da economia aumentaria.