O Brasil só vai mudar quando o
povo parar de fugir da política e começar a entendê-la.
O brasileiro tem uma dificuldade
crônica em lidar com política. É quase um tabu. Quando o assunto surge, a
reação clássica é aquela velha frase repetida há décadas:
“Política, religião e futebol
não se discutem.”
Pois bem, vamos direto ao ponto:
Futebol realmente não há o que discutir.
É escolha, é paixão, é emoção. Cada um torce para quem quiser, e ponto final.
Religião e
política, no entanto, são outra história.
Na política, essa incoerência é
ainda mais grave — porque atinge diretamente o presente e o futuro de um país
inteiro.
O brasileiro, em grande parte,
diz que "odeia política", mas continua votando sem critério. Elege
políticos pelas promessas vazias, pelos comícios empolgantes, pelas frases de
efeito, pelos cabos eleitorais de sempre. Depois, quando o eleito faz
exatamente o que sempre fizeram — barganhas políticas, desvios, corrupção,
loteamento de cargos, enriquecimento próprio e manutenção de mordomias
indecentes — vem o discurso padrão:
“Nunca mais voto nesse.”
Mas na eleição seguinte, lá está o mesmo eleitor...
Votando de novo.
Repetindo o ciclo.
Reclamando do próprio voto.
Essa é a grande incoerência
brasileira.
O brasileiro reclama dos políticos, mas não estuda política.
Reclama da corrupção, mas normaliza o “jeitinho”.
Reclama da desigualdade, mas não questiona a estrutura do sistema.
Diz que não gosta de política, mas
está nas urnas, em todas eleições votando, e com isso entrega o país nas mãos
dos que gostam de explorá-la.
Não se pode reclamar da
política e continuar sustentando o ciclo que a mantém como está.
O povo precisa entender que não
são os políticos que sustentam o Brasil.
Quem mantém o país funcionando é o próprio povo, com o suor do seu trabalho,
com os impostos altíssimos que paga, com sua força de produção.
É preciso sair dessa visão míope
de que política é "assunto sujo", ou "coisa que não se
discute".
Política precisa, sim, ser debatida — com razão, consciência e ética.
Política não pode ser fanatismo de palanque.
Política não é torcida organizada de partido.
Política deve ser o instrumento racional para organizar a sociedade em torno de
justiça social, dignidade humana, igualdade de oportunidades, saúde, educação,
moradia e segurança pública.
O Eleitor Tem Mais Opções do
Que Imagina
Outra incoerência comum está no
próprio ato de votar.
O voto no Brasil é obrigatório,
mas não no sentido que muitos pensam.
A lei exige que o cidadão
compareça às urnas — mas não obriga a escolher nenhum candidato.
O eleitor tem o direito legítimo de:
- Votar nulo — quando nenhum candidato o
representa;
- Votar em branco — como sinal de protesto;
- Justificar ausência — se estiver em trânsito
no dia da eleição;
- Abster-se e pagar a multa simbólica de R$ 3,50
— como forma pacífica de não validar o processo.
Esses mecanismos existem
justamente para que o eleitor possa manifestar sua insatisfação com os
candidatos que lhe são oferecidos.
Porém, o que falta ao povo é consciência
política.
Enquanto o brasileiro não assumir
que política é uma responsabilidade coletiva, não adianta reclamar.
Enquanto pensar apenas “o que é
melhor para mim” e não “o que é justo para todos”, o sistema continuará girando
em favor de poucos.
A democracia brasileira não falha por excesso de escândalos.
Ela falha por excesso de tolerância e por um povo que se recusa a estudar
política.
Chegou a hora do povo
brasileiro romper essa incoerência.
- Discutir política com consciência.
- Exigir ética e responsabilidade dos seus
representantes.
- Deixar de sustentar com o voto aquilo que tanto
critica no discurso.
- Formar novas gerações politicamente alfabetizadas.
Brasil, mostra sua cara.
Ou o povo assume o comando — ou continuará refém dos mesmos de sempre.

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