quarta-feira, 12 de novembro de 2025

COP30: O PALCO DO CLIMA OU O PALCO DO LOBBY?

 

Entre promessas ambientais e interesses corporativos, o que realmente está em jogo?

A COP30 — Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática — realizada em Belém do Pará em 2025, já carrega no seu DNA um paradoxo explosivo: ao mesmo tempo em que se propõe a ser um espaço de deliberação sobre o futuro climático do planeta, é também um terreno fértil para disputas de poder, acordos políticos obscuros e estratégias de greenwashing corporativo. É o “futuro verde” sob risco de ser tingido de cinismo.

1. Greenwashing: Maquiando a destruição com tinta verde

A COP reúne empresas, governos e organizações da sociedade civil. Mas entre os estandes coloridos e painéis sobre sustentabilidade, empresas multinacionais — muitas das quais líderes na emissão de gases de efeito estufa — tentam se redesenhar como protagonistas da “transição verde”.

Trata-se de um jogo ensaiado: propagandas sobre produtos ecológicos, promessas de redução de carbono até 2050, certificações duvidosas e compromissos que não passam de retórica. É o greenwashing, ou lavagem verde, uma estratégia para enganar a opinião pública, disfarçar o verdadeiro impacto ambiental e manter modelos econômicos predatórios intactos.

Exemplos famosos? 

  • "O escândalo da Volkswagen, revelado em 2015, expôs o uso deliberado de softwares para fraudar testes de emissão em veículos a diesel, enquanto a empresa alardeava falsamente um 'diesel limpo'. Casos como esse ilustram o teatro do greenwashing: assim como ocorre com produtos 'verdes' da indústria alimentícia ou automotiva que escondem cadeias produtivas poluentes e exploratórias, trata-se de maquiar uma lógica predatória com tintas de sustentabilidade."
  • A Fiat foi alvo de uma denúncia de greenwashing relacionada à promoção do "pneu superverde" em 2017. A acusação centrou-se em alegações de que a campanha publicitária do produto exagerava ou deturpava seus reais benefícios ambientais. A denúncia argumentou que, embora o pneu pudesse de fato oferecer os benefícios prometidos (menor consumo e maior durabilidade), a publicidade da Fiat se concentrava exclusivamente nessas vantagens sem considerar o impacto ambiental completo do produto.
  • O caso do guardanapo da marca Carrefour, que foi criticado por alegar ser ecológico. O Carrefour enfrentou críticas e acusações de "greenwashing" (propaganda enganosa verde) em relação a várias iniciativas e produtos, incluindo bandejas de isopor e, possivelmente, guardanapos, devido a alegações ecológicas que, segundo os críticos, não podiam ser comprovadas com fatos concretos. A rede foi alvo de denúncias de organizações como a Proteste e a InBioPack por usar um apelo ecológico em embalagens que, na verdade, não eram sustentáveis como anunciado. 

2. O Brasil como vitrine e vitimador

Sediar a COP30 é, para o governo brasileiro, uma oportunidade de ouro para projetar sua imagem como defensor da Amazônia e da justiça climática. Mas a realidade grita: desmatamento legalizado, avanço da mineração em terras indígenas, expansão do agronegócio e uma economia baseada na exportação de matéria-prima bruta, sem valor agregado, em benefício de elites nacionais e globais.

A contradição é brutal: enquanto em Belém se discutem políticas ambientais globais, as populações locais convivem com contaminação por mercúrio, perda de territórios tradicionais e perseguição a defensores ambientais.

3. Disputa de narrativas: quem deve pagar a conta?

Na COP30, a geopolítica entra em cena. Países do Sul Global, como o Brasil, exigem financiamento climático dos países ricos — historicamente os maiores poluidores — para promoverem sua transição energética. Os países desenvolvidos, por sua vez, resistem a compromissos mais robustos, empurrando a responsabilidade para o futuro.

É o embate entre o "quem poluiu mais" e o "quem ainda quer se desenvolver". No meio desse fogo cruzado, os verdadeiros afetados — povos indígenas, comunidades ribeirinhas, quilombolas e trabalhadores explorados — continuam sendo silenciados.

4. A sociedade civil como força de resistência

ONGs, cientistas, povos originários e movimentos sociais exercem pressão vital dentro da COP. São eles que denunciam os acordos de bastidores, exigem transparência e colocam os verdadeiros problemas na mesa: justiça ambiental não se faz com marketing, mas com redistribuição de poder e recursos.

No entanto, até mesmo dentro da sociedade civil há disputas internas. As organizações mais alinhadas ao sistema conseguem mais espaço, enquanto as vozes radicais e territorializadas são abafadas — ou ignoradas.

Justiça climática exige justiça social

Se não houver enfrentamento das desigualdades estruturais, qualquer acordo climático será um castelo de areia. Não basta reduzir emissões: é preciso garantir acesso justo à energia, ao território, à água, à terra e à autodeterminação dos povos.

A COP30 pode ser mais um espetáculo ou pode ser um ponto de inflexão. Vai depender de quem fala — e de quem tem coragem de escutar.

Compartilhe este texto e ajude a desmascarar o greenwashing. Mostre a cara, Brasil. Mostre o território, a verdade e o povo.


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