O Orçamento Sequestrado: Entre
a Liberdade de Constant e a Tirania das Emendas
Quando o recurso que deveria
servir a um projeto de nação é fatiado para garantir a sobrevivência individual
de parlamentares, o Estado deixa de ser um indutor de desenvolvimento para se
tornar um balcão de negócios.
Benjamin Constant, um dos grandes
pensadores da liberdade, deixou um alerta que parece escrito para o Brasil de
hoje: "Quando não se colocam limites aos representantes do povo, eles
não são defensores da liberdade, mas candidatos à tirania".
No Brasil, essa ausência de
limites ganhou um nome técnico e uma roupagem institucional: as emendas
parlamentares. O que deveria ser um instrumento para ajustes finos em
benefício de comunidades locais transformou-se em um câncer com metástase
no Estado brasileiro.
O Orçamento em Metástase
Hoje, deputados e senadores
controlam parcelas bilionárias do orçamento público. Em 2024, a cifra assusta:
mais de R$ 44 bilhões saíram dos cofres públicos com o carimbo de
emendas.
Isso significa que mais de 25%
das despesas discricionárias da União (aquilo que o governo realmente tem
poder de decidir onde investir) estão nas mãos do Congresso.
- A consequência: O planejamento técnico
nacional é esvaziado.
- O resultado: O dinheiro não vai para onde o
país mais precisa, mas para onde o parlamentar precisa garantir o seu
"curral eleitoral" e a sua reeleição.
Isso não é democracia; é a apropriação
indébita do orçamento público para fins de manutenção de poder.
A Distorção dos Valores: A Lei
do Mais Forte
Neste cenário de "quem pode
mais chora menos", conceitos fundamentais são distorcidos para justificar
a desigualdade:
- Meritocracia: No sistema atual, virou
sinônimo de "quem tem mais influência, leva mais".
- Livre Iniciativa: Transformada em um
"cada um por si", onde o bem comum é sacrificado.
- Redução do Estado: Muitas vezes usada como
fachada para a "Lei do mais forte", retirando a proteção social
de quem mais precisa enquanto o topo mantém seus privilégios.
A Arte de Mentir e o Elo da
Justiça
Antônio Ermínio de Moraes, com a
clareza de quem conhecia os bastidores do poder, definiu a política brasileira
de forma brutal: "A política é a arte de pedir votos aos pobres, pedir
recursos financeiros aos ricos e mentir para ambos".
Essa mentira sistemática é o que
rompe o Elo da Justiça. O pobre vota acreditando no "favor" da
emenda (que, como vimos, é o seu próprio dinheiro voltando em migalhas),
enquanto o sistema garante que a estrutura de desigualdade permaneça intacta.
O Limite Necessário
Para sairmos do status de
"candidatos à tirania" e voltarmos ao caminho da liberdade e do
desenvolvimento, o Brasil precisa retomar as rédeas do seu planejamento. O
orçamento não pode ser moeda de troca para reeleição.
A verdadeira reconstrução exige
que o interesse público seja maior que o interesse paroquial. Enquanto
aceitarmos que o Estado seja fatiado em nome da "governabilidade",
continuaremos assistindo à metástase do nosso futuro.
No contexto político e social, “paroquial”
é usada para descrever algo que é limitado, restrito a uma pequena
localidade ou a um grupo muito específico, em oposição ao que é universal
ou nacional.
Quando digo que o interesse
público deve ser maior que o interesse paroquial, quero dizer o
seguinte:
O Local contra o Nacional (O
"Curral Eleitoral")
O interesse paroquial é aquele em
que o político pensa apenas no seu "pequeno quadrado".
- Exemplo: Um deputado envia uma verba para
construir um portal luxuoso na entrada de uma cidadezinha onde ele tem
muitos votos (interesse paroquial), enquanto o país inteiro sofre com a
falta de infraestrutura básica (interesse público).
- Ele atende à sua "paróquia" para garantir
o voto, mas prejudica a nação ao fatiar o orçamento.
A Visão de Curto Prazo vs.
Projeto de Estado
O interesse paroquial é míope.
Ele foca no benefício imediato e visível para um grupo pequeno, para que o
político seja visto como "o homem que traz as coisas".
Já o interesse público foca no
que é necessário para o Brasil daqui a 10, 20 anos. É o pensamento sistêmico:
"O que é melhor para o país como um todo, mesmo que não renda uma foto de
inauguração na minha cidade amanhã?"
O "Fisiologismo"
Na política brasileira, o termo "paroquialismo" está muito ligado ao fisiologismo (o famoso "toma lá, dá cá"). O parlamentar não vota em uma lei porque ela é boa para o Brasil, mas porque, em troca do voto, ele recebeu uma emenda para a sua "paróquia".
|
Interesse
Público (Nacional) |
Interesse
Paroquial (Local/Privado) |
|
Foco: No bem
comum de todos os brasileiros. |
Foco: No bem
de um grupo ou cidade específica. |
|
Objetivo:
Desenvolvimento sustentável e estratégico. |
Objetivo:
Garantir a reeleição do político. |
|
Visão: Longo
prazo (Política de Estado). |
Visão: Curto
prazo (Política de conveniência). |
|
Exemplo:
Reforma tributária justa para todos. |
Exemplo:
Emenda para uma obra desnecessária em reduto eleitoral. |
Focar no interesse público de
longo prazo (10 ou 20 anos) é o que separa as nações que prosperam daquelas que
apenas "sobrevivem" a crises. Quando o olhar político se limita ao
"quintal" (interesse paroquial), o país sofre o que chamamos de fragmentação
estratégica.
A Falta de Sinergia e a
"Obra que não leva a lugar nenhum"
O maior problema de fatiar o
orçamento em "paróquias" é que as obras não se conectam.
- Interesse Paroquial: Um deputado consegue
verba para uma ponte em uma cidade pequena para agradar seu eleitorado.
- Interesse Público: O país precisa de uma
ferrovia que atravesse cinco estados para baratear o preço do alimento
para todos.
Se o dinheiro é gasto na ponte
isolada (que muitas vezes nem tem estrada chegando nela), falta dinheiro para a
ferrovia. O resultado é um país cheio de "puxadinhos" e sem uma
infraestrutura que realmente gere riqueza.
O Custo da Descontinuidade
Projetos que curam uma nação
(como a reforma do sistema educacional ou a transição energética) levam
décadas. O interesse paroquial é imediatista: ele quer o resultado antes da
próxima eleição.
- Quando o foco é o "meu quintal", o
político não investe em Políticas de Estado (aquelas que continuam,
não importa quem seja o presidente), mas em Políticas de Governo
(aquelas que ele pode inaugurar e colocar uma placa com o nome dele).
O Aprofundamento das
Desigualdades Regionais
O paroquialismo cria "ilhas
de prosperidade" baseadas no poder político, não na necessidade social.
- Se um estado tem parlamentares muito influentes e
"barulhentos", ele recebe bilhões.
- Um estado vizinho, que pode ter necessidades muito
mais urgentes de saneamento ou saúde, mas tem menos "peso"
político em Brasília, fica abandonado.
Isso gera um Brasil que cresce
aos pedaços, onde o CEP de onde você nasce define sua chance de sobreviver, o
que rompe totalmente o Elo da Justiça.
Visão Paroquial vs. Visão Nacional
|
Característica |
Interesse
Paroquial (Míope) |
Interesse
Público (Estratégico) |
|
Horizonte
Temporal |
Próximos 2 ou 4
anos (Eleição). |
Próximos 10 a 30
anos (Geração). |
|
Aplicação do
Recurso |
Fragmentada em mil
pequenas obras. |
Concentrada em
projetos estruturantes. |
|
Critério de
Escolha |
Lealdade política e
votos. |
Dados técnicos e
necessidade social. |
|
Resultado Social |
Dependência do
"político provedor". |
Autonomia e
soberania do cidadão. |
Quando isso impede o
engrandecimento do país?
O Brasil não se torna uma
potência mundial exportando apenas o que sobra de cada "paróquia". Um
país só é soberano quando tem:
- Educação de Base Unificada: Para que o jovem
do sertão e o da capital tenham o mesmo potencial técnico.
- Logística Integrada: Portos, aeroportos e
ferrovias que funcionem como um corpo único.
- Segurança Jurídica: Regras que não mudam
toda vez que um novo grupo assume a sua "fatia" do orçamento.
Enquanto o orçamento for visto
como um "bolo" para ser repartido entre amigos, e não como um
"combustível" para o motor da nação, continuaremos sendo um gigante
acorrentado por interesses minúsculos.
A reconstrução do Brasil exige
que paremos de olhar apenas para o nosso "quintal" (interesse
paroquial) e passemos a exigir projetos que curem a nação inteira (interesse
público). Enquanto o orçamento for fatiado em "paróquias", o Brasil
continuará sendo um conjunto de ilhas desiguais em vez de um país soberano.

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