sexta-feira, 26 de junho de 2026

A RESISTÊNCIA NACIONALISTA AO MODELO NEOLIBERAL E AS CONSEQUÊNCIAS DA DESESTATIZAÇÃO NO DESENVOLVIMENTO DO PAÍS.

Brizola tinha razão? O dia em que a privatização virou sinônimo de "Lesa-Pátria"

A relação entre Leonel Brizola e o debate sobre as privatizações é um dos capítulos mais inflamados, marcantes e atuais da história política brasileira. Especialmente durante a década de 1990 — o auge da era neoliberal sob os governos de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso —, a voz rouca e firme do líder gaúcho ecoou como a principal trincheira de resistência ao desmonte do Estado.

Como um dos maiores expoentes do trabalhismo e do nacional-estatismo no Brasil, Brizola tinha uma visão profundamente crítica ao modelo de desestatização. Para ele, a privatização de empresas estratégicas não era apenas um erro econômico: era uma forma de lesa-pátria e, em muitos casos, sinônimo de uma corrupção institucionalizada.

Mas o que fundamentava essa linha de pensamento tão radical e contundente? Vamos entender os três pilares que sustentavam a tese brizolista.

1. O conceito de "Corrupção da Soberania"

Para Brizola, a corrupção nas privatizações ia muito além do suborno clássico ou do desvio de malas de dinheiro (embora ele também denunciasse favorecimentos ilícitos nos leilões). A verdadeira corrupção estava na entrega do patrimônio público e estratégico nacional a interesses privados e estrangeiros.

Ele argumentava que gigantes como a Vale do Rio Doce, a Telebras e o setor energético não caíram do céu; haviam sido construídas com o suor, o sangue e os impostos do povo brasileiro ao longo de décadas de esforço nacional. Vendê-las — muitas vezes por valores que ele considerava "a preço de banana" — significava transferir a riqueza de uma nação inteira para o bolso de poucos especuladores financeiros.

2. O escândalo das "Moedas Podres" e do financiamento público

Talvez o argumento técnico mais demolidor de Brizola contra o processo de privatização fosse o modelo de engenharia financeira dos leilões. Era aqui que ele apontava a fraude institucionalizada:

  • As Moedas Podres: O governo aceitava títulos da dívida pública federal que valiam quase nada no mercado real pelo seu valor de face (100% do valor nominal) para o pagamento das empresas.
  • Financiamento Público: Para piorar o cenário na visão do trabalhista, bancos públicos (como o BNDES) frequentemente financiavam os consórcios compradores.

Brizola sintetizava essa dinâmica com sua ironia ácida e inconfundível:

"O governo vende o patrimônio do povo, aceita dinheiro que não vale nada e ainda empresta o dinheiro de verdade para o comprador pagar."

3. Setores Estratégicos e Segurança Nacional: Do Monopólio Público ao Privado

Seguindo a cartilha nacionalista de Getúlio Vargas e João Goulart, Brizola defendia que energia, telecomunicações, mineração e petróleo eram a espinha dorsal da soberania e da segurança de um país.

Privatizar esses setores significava perder o controle sobre as tarifas cobradas do cidadão comum e sobre os rumos do próprio crescimento da nação. Ele previa um cenário que muitos hoje debatem nas contas de luz e água: a transformação de monopólios estatais (que visavam o bem social) em monopólios privados (cujo único objetivo é o lucro máximo), resultando no encarecimento brutal do custo de vida da população.

O Contraponto Histórico: O Outro Lado da Moeda

Para sermos justos com o debate da época, os defensores das privatizações e os economistas liberais tinham argumentos de peso que convenciam grande parte da sociedade nos anos 90:

  • Cabides de Emprego: Argumentava-se que as estatais haviam sido capturadas pela politicagem, tornando-se ineficientes, deficitárias e quebrando o caixa do Estado.
  • Falta de Investimento: O governo não tinha dinheiro para modernizar serviços básicos. Quem viveu os anos 80 e 90 lembra que conseguir uma linha telefônica fixa demorava anos, dependia de sorteio e custava o preço de um carro zero.
  • Modernização: A privatização, segundo essa ala, atrairia capital estrangeiro, aumentaria a concorrência e melhoraria os serviços (como de fato ocorreu na universalização e expansão da telefonia móvel), permitindo ao Estado focar seus recursos no que realmente importa: saúde, educação e segurança.

O Legado de uma Postura Firme

Quando Leonel Brizola associava privatização à corrupção, ele estava atacando a lógica moral e econômica do sistema de venda: o subfinanciamento do patrimônio nacional, o uso de títulos desvalorizados e a perda do controle sobre a nossa própria geopolítica.

Foi uma postura que ele manteve até o fim de sua vida, consolidando-se como o maior e mais barulhento opositor ao desmonte do Estado trabalhista no Brasil. Décadas depois, diante de crises energéticas, apagões e debates sobre a reestatização de serviços de água e saneamento pelo mundo, as cinzas desse debate mostram que os alertas de Brizola sobre as consequências das privatizações no retrocesso do desenvolvimento do país continuam mais vivos do que nunca.

E você, o que acha? O tempo deu razão aos alertas nacionalistas de Brizola ou as privatizações foram um mal necessário para a modernização do Brasil?


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