Brizola tinha razão? O dia em
que a privatização virou sinônimo de "Lesa-Pátria"
A relação entre Leonel Brizola
e o debate sobre as privatizações é um dos capítulos mais inflamados, marcantes
e atuais da história política brasileira. Especialmente durante a década de
1990 — o auge da era neoliberal sob os governos de Fernando Collor e Fernando
Henrique Cardoso —, a voz rouca e firme do líder gaúcho ecoou como a principal
trincheira de resistência ao desmonte do Estado.
Como um dos maiores expoentes do
trabalhismo e do nacional-estatismo no Brasil, Brizola tinha uma visão
profundamente crítica ao modelo de desestatização. Para ele, a privatização de
empresas estratégicas não era apenas um erro econômico: era uma forma de
lesa-pátria e, em muitos casos, sinônimo de uma corrupção
institucionalizada.
Mas o que fundamentava essa linha
de pensamento tão radical e contundente? Vamos entender os três pilares que
sustentavam a tese brizolista.
1. O conceito de
"Corrupção da Soberania"
Para Brizola, a corrupção nas
privatizações ia muito além do suborno clássico ou do desvio de malas de
dinheiro (embora ele também denunciasse favorecimentos ilícitos nos leilões). A
verdadeira corrupção estava na entrega do patrimônio público e estratégico
nacional a interesses privados e estrangeiros.
Ele argumentava que gigantes como
a Vale do Rio Doce, a Telebras e o setor energético não caíram do
céu; haviam sido construídas com o suor, o sangue e os impostos do povo
brasileiro ao longo de décadas de esforço nacional. Vendê-las — muitas vezes
por valores que ele considerava "a preço de banana" — significava transferir
a riqueza de uma nação inteira para o bolso de poucos especuladores
financeiros.
2. O escândalo das
"Moedas Podres" e do financiamento público
Talvez o argumento técnico mais
demolidor de Brizola contra o processo de privatização fosse o modelo de
engenharia financeira dos leilões. Era aqui que ele apontava a fraude
institucionalizada:
- As Moedas Podres: O governo aceitava títulos
da dívida pública federal que valiam quase nada no mercado real pelo seu
valor de face (100% do valor nominal) para o pagamento das empresas.
- Financiamento Público: Para piorar o cenário
na visão do trabalhista, bancos públicos (como o BNDES) frequentemente
financiavam os consórcios compradores.
Brizola sintetizava essa dinâmica
com sua ironia ácida e inconfundível:
"O governo vende o
patrimônio do povo, aceita dinheiro que não vale nada e ainda empresta o
dinheiro de verdade para o comprador pagar."
3. Setores Estratégicos e
Segurança Nacional: Do Monopólio Público ao Privado
Seguindo a cartilha nacionalista
de Getúlio Vargas e João Goulart, Brizola defendia que energia,
telecomunicações, mineração e petróleo eram a espinha dorsal da soberania e da
segurança de um país.
Privatizar esses setores
significava perder o controle sobre as tarifas cobradas do cidadão comum e
sobre os rumos do próprio crescimento da nação. Ele previa um cenário que
muitos hoje debatem nas contas de luz e água: a transformação de monopólios
estatais (que visavam o bem social) em monopólios privados (cujo único objetivo
é o lucro máximo), resultando no encarecimento brutal do custo de vida da
população.
O Contraponto Histórico: O
Outro Lado da Moeda
Para sermos justos com o debate
da época, os defensores das privatizações e os economistas liberais tinham
argumentos de peso que convenciam grande parte da sociedade nos anos 90:
- Cabides de Emprego: Argumentava-se que as
estatais haviam sido capturadas pela politicagem, tornando-se
ineficientes, deficitárias e quebrando o caixa do Estado.
- Falta de Investimento: O governo não tinha
dinheiro para modernizar serviços básicos. Quem viveu os anos 80 e 90
lembra que conseguir uma linha telefônica fixa demorava anos, dependia de
sorteio e custava o preço de um carro zero.
- Modernização: A privatização, segundo essa
ala, atrairia capital estrangeiro, aumentaria a concorrência e melhoraria
os serviços (como de fato ocorreu na universalização e expansão da
telefonia móvel), permitindo ao Estado focar seus recursos no que
realmente importa: saúde, educação e segurança.
O Legado de uma Postura Firme
Quando Leonel Brizola associava
privatização à corrupção, ele estava atacando a lógica moral e econômica do
sistema de venda: o subfinanciamento do patrimônio nacional, o uso de títulos
desvalorizados e a perda do controle sobre a nossa própria geopolítica.
Foi uma postura que ele manteve
até o fim de sua vida, consolidando-se como o maior e mais barulhento opositor
ao desmonte do Estado trabalhista no Brasil. Décadas depois, diante de crises
energéticas, apagões e debates sobre a reestatização de serviços de água e
saneamento pelo mundo, as cinzas desse debate mostram que os alertas de Brizola
sobre as consequências das privatizações no retrocesso do desenvolvimento do
país continuam mais vivos do que nunca.
E você, o que acha? O tempo deu razão aos alertas nacionalistas de Brizola ou as privatizações foram um mal necessário para a modernização do Brasil?
Nenhum comentário:
Postar um comentário