domingo, 4 de maio de 2025

BRASIL, UM PAÍS DEVANEIO

 

BRASIL, UM PAÍS DEVANEIO

Após sucessivos embates eleitorais turbulentos, a política brasileira parece caminhar entre o despertar popular e o velho sono cívico. A participação crítica dos eleitores aumentou, sim, mas ainda é tímida diante da estrutura de um sistema que insiste em se retroalimentar da desigualdade, da ignorância e da apatia.

Desde as eleições de 2014, acompanhamos um movimento crescente nas redes sociais — em especial no Facebook — de questionamentos, denúncias e desabafos. É nesse espaço informal que se revela parte da indignação nacional, onde memes viram denúncias, e links substituem manchetes. Apesar das distorções e fake news, há ali também um grito real de frustração e sede por transformação. Ainda estamos longe, porém, de superar o devaneio e alcançar a maturidade política que constrói um Brasil real.

A idolatria por partidos e candidatos ainda guia muitos eleitores. O erro começa justamente aí: quando o eleitor age como torcedor de futebol, defendendo siglas ou figuras com fervor irracional, desconsiderando seu histórico, sua conduta e, pior, seus interesses. A primeira ruptura necessária é com essa lógica passional. Precisamos de eleitores que escolham por critérios como integridade, preparo, compromisso ético e visão de país.

A política brasileira, infelizmente, parece ter se especializado em encobrir erros apontando os erros alheios. Um ciclo vicioso de acusações que, na prática, apenas alimenta o cinismo popular e paralisa a transformação. O problema é estrutural, cultural e histórico. Está na herança do patrimonialismo, no jeitinho brasileiro, na famigerada "Lei de Gérson", onde se valoriza "levar vantagem em tudo" — mesmo que à custa da ética e da coletividade.

Recentes denúncias, como a troca de benefícios sociais por votos, escancaram práticas vergonhosas que perpetuam a miséria como ferramenta de manipulação eleitoral. A notícia de que cadastros do Bolsa Família, dentaduras, materiais de construção, e até benefícios previdenciários foram usados como moeda de troca por apoio político não deveria causar espanto. É a ponta de um iceberg que todos já conhecem — mas que muitos fingem não ver.

Como alguém que viveu de perto a realidade dos pequenos municípios e presenciou práticas questionáveis na concessão de aposentadorias rurais, afirmo com segurança: não se trata apenas de corrupção institucional, mas de uma cultura de conivência. O eleitor também participa, negociando seu voto por migalhas. A pobreza vira moeda, e a dignidade, um luxo inacessível.

O livro O Nobre Deputado, de Marlon Reis — juiz e idealizador da Lei da Ficha Limpa — escancara essa engrenagem perversa: “A política é movida a dinheiro e poder. Dinheiro compra poder, e poder serve para obter mais dinheiro.” Um ciclo infernal onde os bons são derrotados pela falta de recursos, e os maus se perpetuam pelo financiamento escuso.

É por isso que o sonho de um país ético parece devaneio. Porque, na prática, honestidade não se elege sozinha. A estrutura está viciada. Os raros que ousam enfrentar esse sistema são tragados pela máquina que cooptou até mesmo a esperança. E quando até a esperança é capturada, sobra o palhaço — aquele que, ingenuamente, ainda acredita que o país pode melhorar.

Não é pessimismo. É realismo indignado. Continuamos, em pleno século XXI, vivendo sob a sombra do coronelismo repaginado, do voto de cabresto disfarçado de assistência social, da compra de consciências travestida de política pública.

Quando, enfim, teremos um Brasil verdadeiro? Quando os cidadãos deixarão de ser massa de manobra e se tornarão protagonistas da mudança que tanto almejamos?

Enquanto isso não acontece, seguiremos neste país devaneio — onde discursos de igualdade convivem com práticas de exclusão, e onde o futuro, sempre prometido, nunca chega.


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