Quem defende o bem comum é comunista ou vive o Evangelho?
Vivemos um tempo em que defender justiça social virou motivo de desconfiança. Quantos já não ouviram: "Você fala de igualdade, deve ser comunista"? Mas a pergunta que não quer calar é: quem defende o bem comum é comunista ou está apenas tentando viver o Evangelho?
Essa reflexão é inspirada em um texto publicado pela Carta Capital, disponível em: Carta Capital - Diálogos da Fé.
Dom Helder Câmara, arcebispo e defensor dos pobres, disse uma vez: "Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, me chamam de comunista". Essa frase, poderosa e atual, desmascara a hipocrisia de quem tenta transformar empatia em ideologia.
Religiosos que dizem seguir Jesus, mas atacam quem defende o bem comum, se esquecem que Cristo viveu entre os pobres, marginalizados e injustiçados. Não pregava o acúmulo de riquezas, mas o desapego, a partilha e a solidariedade. Usam o nome de Cristo para julgar, condenar e enriquecer às custas da fé alheia. Isso não é fé. É mercado da fé.
O Evangelho é claro: Jesus veio para os doentes, não para os sãos. Veio para os oprimidos, não para os opressores. Veio libertar, não aprisionar. Em João 10, Jesus denuncia os líderes que agem por interesse próprio e afirma: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.”
Jesus foi socialista? Tecnicamente não. O socialismo enquanto sistema surgiu séculos depois. Mas os valores que ele praticava — justiça, solidariedade, partilha e amor incondicional — estão profundamente alinhados com os princípios socialistas. Como afirmou Jefferson Ramalho em entrevista ao portal Gospel Mais:
“Jesus foi o maior socialista que já existiu [...] enfrentou a injustiça, a arrogância, a exploração, a falsa meritocracia, e defendeu os excluídos, os explorados, as vítimas de preconceito.”
E mais:
“É revoltante saber que existem pastores milionários enquanto há fiéis passando fome em suas igrejas.”
A igreja descrita em Atos dos Apóstolos (2,44-47 e 4,32-37) era de partilha e comunhão — uma verdadeira comunidade solidária, sem acúmulo de bens e com distribuição justa das riquezas. Essa é a essência do cristianismo primitivo.
E o que vemos hoje? Líderes religiosos enriquecendo, políticos se aliando ao poder e o povo sendo enganado com a promessa de prosperidade individual, enquanto a fome e a miséria se espalham.
O site Dom Total também reforça:
“Quem pode hoje falar sobre os pobres sem ser chamado de comunista?”
“É um escândalo humano e cristão a quantidade de pessoas vivendo em situação degradante.”
Então, defender o bem comum é comunismo? Não. É humanismo. É cristianismo verdadeiro. É cidadania consciente. É solidariedade que se transforma em política pública. É justiça social com base no Evangelho e na dignidade humana.
A mensagem é clara: Todos os cidadãos merecem uma vida digna — e isso depende dos nossos governantes, do sistema político e, principalmente, das nossas escolhas. O poder emana do povo.
E que fique o lembrete:
“É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus.” (Mateus 19:24)
A verdadeira fé não se alinha ao poder, mas à justiça. Não se alimenta de privilégios, mas de solidariedade.
Se seguir Jesus é ser comunista, então que sejamos. Porque, no final das contas, é melhor ser julgado por defender os pobres do que ser condenado por ignorá-los.
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