A Pedagogia do Silêncio:
Por
Que o brasileiro Aceita Calado o Escárnio de Brasília?
Existe uma pergunta incômoda que
ecoa pelos corredores da nossa história e que se torna ainda mais urgente neste
ano de 2026: por que o povo brasileiro aceita, com respeitoso silêncio,
tanta injustiça institucionalizada? No meu livro, "O Karma Coletivo
do Povo Brasileiro", dedico páginas para compreender as amarras
invisíveis que moldam a nossa psique social. O diagnóstico é doloroso, mas
necessário: fomos condicionados a confundir resiliência com submissão.
Desenvolvemos uma tolerância patológica ao abuso de poder, aceitando migalhas
orçamentárias enquanto financiam-se banquetes nababescos para uma aristocracia
estatal — uma elite que concentra privilégios e poder político dentro do
próprio aparelho do Estado.
Segundo a teoria política
clássica, quando a aristocracia perde o foco no bem comum e passa a governar em
benefício próprio, ocorre a degeneração do sistema. É exatamente o que
testemunhamos: uma minoria inescrupulosa utiliza a estrutura pública
para garantir interesses particulares e acúmulo de riqueza, em vez de servir à
população. Uma classe que se considera a mais qualificada para governar, mas
que, na realidade, governa mal.
O Abismo das Realidades:
A
Escala 3x4 vs. A Luta pelo Fim da 6x1
Não há exemplo mais cruel da
divisão entre o Brasil de "ouro" e o Brasil de "barro"
do que a disparidade das jornadas de trabalho. Enquanto o trabalhador comum
chora, sua e sangra nas fábricas, no comércio e nos transportes, lutando
desesperadamente pelo fim da esgotante escala 6x1, os parlamentares em
Brasília desfrutam da confortável e imoral escala 3x4.
Trabalha-se de terça a
quinta-feira; folga-se de sexta a segunda. O salário? Limpinho, intocado e
reajustado com índices que o cidadão comum jamais verá em sua carteira de
trabalho. Somam-se a isso privilégios escandalosos: moradia oficial sem custo
ou o direito a um auxílio-moradia de R$ 4.253,00. Se o aluguel ultrapassar esse
teto, o deputado pode cobrir a diferença usando a cota parlamentar em até R$
4.148,80. Para se ter uma ideia da magnitude do desperdício, o gasto acumulado
de todos os deputados apenas com auxílio-moradia ultrapassa R$ 1,2 milhão.
Essa mesma cota parlamentar banca
regalias inacessíveis ao cidadão comum: passagens aéreas — cujo gasto global
com viagens oficiais atinge quase R$ 1,5 milhão em 2026 —, frotas de carros
oficiais, auxílio-combustível, contas de celular ilimitadas, inscrições em
cursos e planos de saúde vitalícios. É uma blindagem e vitalidade financeira
garantidas às custas de quem mal consegue arcar com o plano de saúde da própria
família.
Para piorar o diagnóstico do
nosso Teatro de Sombras, levantamentos recentes baseados em dados
oficiais da Câmara dos Deputados e divulgados pela mídia — como o portal
Poder360 — indicam que os parlamentares gastaram cerca de R$ 90 milhões com a
rubrica "Divulgação da Atividade Parlamentar". Desse total, R$ 2,7
milhões foram destinados especificamente para anúncios e impulsionamento de
conteúdo no Facebook. O restante pulveriza-se em rádio, jornais impressos,
sites, assessorias de comunicação e farto material gráfico. Ou seja: o político
usa o dinheiro do seu imposto para fazer publicidade de si mesmo e garantir que
continuará no poder. Tudo pago pelo erário.
O sistema político brasileiro
tornou-se o mais caro do mundo. Bilhões de reais são drenados para manter a
ostentação de poucos, enquanto o povo padece para subsistir com um
salário-mínimo que mal garante a dignidade básica. POR QUE NÃO HÁ UMA
REVOLTA GENERALIZADA NAS RUAS CONTRA ESSE DEBOCHE?
O Sequestro do Destino:
Reformas para o Povo, Emendas para os Políticos
O sistema nos impôs uma Reforma
Previdenciária severa sob o argumento técnico de que "o Estado não tem
dinheiro". Disseram ao trabalhador que ele precisaria trabalhar por mais
anos e receber menos para salvar o país. No entanto, o mesmo Estado que alega
escassez para a aposentadoria do idoso abre as torneiras do caixa público para
o "Coronelismo do Século 21": as emendas parlamentares.
Bilhões de reais são sequestrados
do Orçamento da União para abastecer os redutos e currais eleitorais de
políticos de carreira. É o dinheiro do seu imposto, cobrado no feijão e no
salário, sendo usado como ferramenta de marketing privado para garantir a
reeleição perpétua dos mesmos rostos.
Enquanto isso, a realidade do
"cidadão de barro" permanece intocada em sua precariedade crônica:
- Rodovias Esburacadas: Cerca de 62% da malha
rodoviária pavimentada no Brasil apresenta problemas de conservação, com
classificações regulares, ruins ou péssimas. Estudos da Confederação
Nacional do Transporte (CNT) apontam que mais da metade das estradas
brasileiras apresenta pavimento irregular, além de afundamentos,
ondulações e buracos constantes. A geometria inadequada, a falta de
acostamentos e a sinalização deficiente disparam os índices de acidentes.
Além do prejuízo financeiro direto com a manutenção constante dos veículos
dos motoristas, a má conservação acarreta um custo econômico altíssimo
para o país, sendo fator decisivo na inflação e na elevação do preço final
de produtos e alimentos.
- Saúde Sucateada: Hospitais públicos operam
sem insumos básicos, onde a dignidade humana é esquecida em macas nos
corredores. Gasta-se mais para manter o luxo do sistema político do que
com os serviços essenciais voltados ao cidadão que contribui com seu suor.
- Educação de Base Falida: Uma estrutura
propositalmente sucateada, projetada para manter as próximas gerações
alienadas e incapazes de compreender o tamanho do roubo de que são
vítimas.
A Raiz do Silêncio: O Karma da
Submissão
Por que aceitamos? A resposta
está no cerne do nosso Karma Coletivo. O brasileiro foi colonizado sob o signo
do medo e do clientelismo. Fomos ensinados a olhar para o Estado não como um
prestador de serviços contratado pelo nosso esforço, mas como um "senhor
de engenho" a quem devemos implorar por favores.
Quando o cidadão recebe uma rua
asfaltada por meio de uma emenda parlamentar e sente "gratidão" por
isso, ele veste a roupa do súdito. Ele não percebe que o político está apenas
devolvendo um centavo do milhão que confiscou dele. O silêncio nasce da
ignorância política e da falsa esperança de que um "Salvador da
Pátria" resolverá tudo, de cima para baixo.
O Despertar do Patrão para
2026
Essa realidade só mudará quando
aplicarmos o Utilitarismo Ético e o Humanitarismo na nossa
leitura social. O povo precisa compreender, de uma vez por todas, que o
político é o empregado, e o cidadão é o patrão. Não basta exigir candidatos
de "ficha limpa". É preciso exigir o fim das castas. É preciso parar
de aplaudir a entrega de ambulâncias e começar a questionar por que os
hospitais regionais não têm leitos. É urgente arrancar as máscaras do Teatro
de Sombras legislativo.
O circo só acaba quando a plateia
decide levantar-se. O sofrimento nacional é o alarme para o nosso despertar.
Que em 2026, a nossa resposta ao escárnio de Brasília não seja o silêncio
resignado, mas a força soberana de uma consciência coletiva que não aceita mais
financiar a própria opressão.
Ricardo Laporta Educador,
Pensador Político/Filosófico e Autor de "O Karma Coletivo do Povo
Brasileiro".

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