sexta-feira, 15 de maio de 2026

O BARATEAMENTO DO FRETE, O ALÍVIO NAS RODOVIAS E A URGÊNCIA DE RECONSTRUIR O BRASIL SOBRE TRILHOS

 

O Resgate dos Trilhos: A Importância de Reativar as Ferrovias e Preservar Nossa História

O desenvolvimento de uma nação se lê pela forma como ela transporta suas riquezas e preserva o seu passado. No entanto, ao olharmos para o mapa logístico do Brasil, deparamo-nos com mais um capítulo do nosso Teatro de Sombras: o abandono sistemático das ferrovias e a consequente deterioração de um patrimônio histórico de valor inestimável. Reativar os trilhos não é apenas uma necessidade econômica; é um ato de soberania e respeito à nossa memória cultural.

O Auge e a Queda: O Apagão Ferroviário Nacional

Houve um tempo em que o Brasil caminhava sobre trilhos. Por volta do ano de 1960, a malha ferroviária brasileira chegou ao seu auge em extensão, alcançando fantásticos 38 mil quilômetros de ferrovias espalhados de norte a sul do país. Os trens cortavam o território nacional, integrando regiões, transportando safras e aproximando pessoas.

Por que, então, uma estrutura tão vital foi abandonada? A resposta reside em uma escolha política e na crônica falta de investimentos. A partir da segunda metade do século XX, o Estado brasileiro optou por priorizar o modal rodoviário, atraindo a indústria automobilística e concentrando os recursos públicos na abertura de rodovias. As ferrovias, que exigiam manutenção contínua e modernização tecnológica, foram progressivamente sufocadas pelo descaso orçamentário. O resultado foi o encolhimento da malha útil e o isolamento de centenas de municípios.

A Eficiência Energética e o Alívio nas Rodovias

A insistência no modelo puramente rodoviário cobra um preço altíssimo do bolso do cidadão. Sob a ótica do Utilitarismo Ético, a eficiência logística deveria ser tratada como prioridade pública. A economia que as ferrovias proporcionam no consumo de combustível é brutalmente menor quando comparada ao gasto necessário para mover frotas de caminhões. Um único trem de carga é capaz de transportar o equivalente a dezenas de carretas, utilizando uma fração do combustível por tonelada movimentada.

Além disso, a reativação das ferrovias traz um benefício direto para a infraestrutura do país: a redução drástica no fluxo de veículos pesados nas estradas. Menos caminhões disputando espaço nas rodovias significa maior segurança, menos acidentes e, acima de tudo, a conservação do pavimento. Como vimos no levantamento da CNT, as rodovias brasileiras estão destruídas; tirar o excesso de peso dos caminhões e transferi-lo para os trilhos é a chave para estancar o desperdício com reformas asfálticas intermináveis e ineficazes.

O Impacto Direto no Bolso: O Barateamento do Frete

O principal argumento para essa virada de chave logística está no bolso do produtor e do consumidor: a revitalização da malha ferroviária tem o potencial de baratear o custo do frete em até 30% a 50% em comparação ao transporte rodoviário de longa distância.

No cenário atual, o "custo Brasil" é severamente inflacionado porque transportamos produtos de baixo valor agregado e grande volume — como grãos, minérios e combustíveis — por milhares de quilômetros sobre pneus, queimando diesel caro e enfrentando estradas esburacadas. Ao migrar essas cargas pesadas para os trilhos, o custo do transporte despenca. Esse alívio financeiro no frete gera um efeito cascata positivo em toda a economia, aumentando a competitividade das nossas exportações e, mais importante, reduzindo o preço final dos alimentos e produtos que chegam à mesa do trabalhador.

A Ruína da Memória: O Abandono do Patrimônio Histórico

O crime do abandono ferroviário não se restringe à economia; ele fere a alma e a cultura da nação. Estações ferroviárias que outrora foram o coração pulsante de cidades inteiras hoje encontram-se em ruínas. Prédios históricos de arquitetura única, armazéns, locomotivas a vapor e vilas ferroviárias sofrem com a deterioração acelerada pelo tempo, pelo vandalismo e pelo esquecimento estatal.

Esses imóveis de valor histórico e cultural representam a identidade do povo trabalhador. Permitir que desabem é apagar o registro físico do esforço das gerações que construíram o país. Preservar essas estações e reativar os leitos ferroviários — seja para o transporte de cargas, seja para o turismo ou transporte de passageiros — é devolver à sociedade um patrimônio que foi pago com o suor de seus antepassados.

Uma Nova Direção para o Futuro

O Brasil não pode mais ficar refém de um único modal de transporte enquanto bilhões de reais escorrem pelos buracos das estradas, pelo desperdício de combustível e por fretes abusivos. O resgate das ferrovias exige coragem política para romper com o imediatismo dos governantes de carreira e planejar o país para as próximas décadas.

Transmutar a infraestrutura nacional significa entender que o progresso técnico, o alívio econômico no bolso do povo e o respeito à memória histórica devem caminhar juntos, sobre bases sólidas. Está na hora de o Brasil voltar a trilhar o caminho da eficiência e da dignidade.


Ricardo Laporta Educador, Pensador Político/Filosófico e Autor de "O Karma Coletivo do Povo Brasileiro".

 

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